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Mediterrâneo transforma-se num imenso cemitério

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O número de cadáveres faz virar o estômago da gente. O barco que afundou entre a Líbia e a Itália matou, no domingo, 700 imigrantes clandestinos. Outros 400 morreram num naufrágio do dia 12. De um ano para cá, 35 mil conseguiram chegar vivos ao território italiano. Mas isso não é um consolo. Só este ano, e ainda estamos no mês de abril, a média tem sido a de dois afogados por hora. Isso dá pouco mais de 1.700 mortos. A Líbia é quase sempre o país de embarque para essas viagens clandestinas na direção à Europa. Vamos lembrar juntos. A Líbia era até 2011 uma ditadura horrorosa. Os bem-pensantes do Ocidente estimularam a oposição local a brincar de "primavera árabe". O país entrou em guerra civil. Está mais pobre e arrebentado em ternos políticos. Mas a Líbia é também um ponto de encontro para essa travessia perigosa do Mediterrâneo. Tem refugiados da Eritreia, do Mali, da Nigéria, da Tunísia. E também do Egito, um outro país em que a "primavera árabe" não deu certo. Os governantes europeus se reuniram para tentar resolver a questão. Anunciaram coisas que não vão dar certo, como aumentar o patrulhamento para conter a aproximação dos barcos superlotados de gente. Um alto funcionário da ONU disse ontem mais ou menos o óbvio. A travessia do Mediterrâneo vai continuar enquanto existirem as guerras civis, o terrorismo, a falta de emprego e a pobreza. O resto é conversa para tranquilizar os jornalistas e os eleitores. Um outro detalhe é que esse imenso drama despertou o que há de mais sórdido na cabeça dos conservadores. O jornal francês Le Figaro, por exemplo, fez uma pesquisa e constatou que quase 80 por cento dos seus leitores eram favoráveis a uma intervenção militar contra a Líbia, para impedir o tráfico de pessoas. É um problema crônico, que não tem muita solução. Enquanto isso, o Mediterrâneo vai se transformando num imenso cemitério. É assim que o mundo gira.
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